7 de jan. de 2010
Sua Falta
Pratico com afinco o desapego
Àqueles por meio dos quais desafogo
As mágoas, que não merecem minhas lágrimas.
Desafogo a tristeza e a lanço,
Em forma de incerteza, nos braços abertos
Daqueles que, por ternura, vêm para me salvar.
Não matarei afogadas essas mágoas.
Deixa-las-ei no árido deserto da solidão,
Escaldando sob a luz do dia,
Petrificando às sombras da noite.
Desejo vê-las morrerem secas!
Na falta que você me faz,
Atiro alucinado, para todos os lados,
Com minha arma carregada de desprezo.
Você me manda cortar os pulsos agora,
E eu o obedeço para que veja
Que não há mais sangue,
Que já não sinto dor alguma,
Que, sem você, o que existe apenas um corpo oco.
Traga-me de volta o sangue,
Beije-me para que eu sinta a dor
Que consiste unicamente em nosso amor.
Devolva-se ao nosso mundo!
Na falta que você me faz,
A morte em vida é insuperável,
A escuridão da noite imensurável
E a alvorada inalcançável.
Salve-me antes que meu veneno
Ácido corroa tudo o que era pleno
E desole todos os bons corações a minha volta.
Gustavo Lacerda.
26 de out. de 2009
Os Empáticos
Fiquei assustado. Pasmo! Mas o sentimento mais gritante em mim ali era o incomodo – e não o incomodo por ver um louco gritando, apresentando um cartão vermelho e se jogando no chão para um ônibus na hora do Rush. O que me incomodou foram as pessoas, que, por ignorarem os riscos que aquele homem corria – por estarem se lixando, ao bem da verdade, para o quanto é triste a falta de controle emocional, a deficiência das faculdades mentais, o fato de ser sozinho no mundo (por que uma pessoa naquela situação não tem alguém) – riam, algumas até gargalhavam e apontavam como se fosse o maior espetáculo daquele fim de tarde abafado de outubro, quiçá de todo mês de outubro.
Fiquei tão assustado, que me ocorreram diversas formas de tirá-lo dali, mas me faltou ação. Confesso que tive aquele pensamento egoísta e nada altruísta que a maioria de nós tem nessas situações, de que “alguém tinha que fazer alguma coisa” – não eu, outrem. Fiz nada. Fiquei imóvel, atordoado com medo de um carro virar mais apressado e passar por cima daquele homem. E, olhem, tenho que confessar mais uma coisa: talvez, não sei bem, meu maior medo fosse assistir a um atropelamento e não o fato de alguém naquele contexto ser atropelado – medo por mim, não por ele. Isso é preocupante.
Não tenho a menor pretensão de acender qualquer discurso polido, humanitário, politicamente correto com essa crônica – longe de mim, saberá quem me conhece ou conhece meus textos. Mas é que fico profundamente incomodado com a falta de empatia presente na maior parte das pessoas nos dias de hoje – e me incluo neste meio, sem medo de ser apontado ou taxado de qualquer maneira, pois tenho comigo a tranqüilidade de não ser hipócrita, mas sim franco, muito franco.
Eu sou do tipo que se coloca no lugar do outro. Porém minhas experiências de empatia são em situações mais corriqueiras, bem menores, longe de serem extremas. Empatia se aplica pra mim na hora de entender alguém que está mal humorado, alguém que reclama muito da vida, alguém que está com dificuldades financeiras, alguém que brinca demais, alguém que se prende demais a religião, alguém que faz de tudo para se ver livre no mundo, alguém que trabalhe demais ou de menos, que tem suas dificuldades, seus problemas, suas falhas. Aprendo muito com essas minhas experiências, por que, inconscientemente, acabo fazendo minhas projeções e, quando vem a tal da situação difícil, consigo me safar mais rapidamente e com menos dor – já fiz isso bem melhor, é verdade, mas continuo aprendendo.
Exposto a essa situação extrema, me questiono se sou realmente empático como imagino. Eu poderia dizer que, naquele contexto, qualquer atitude da minha parte teria sido solidariedade ou altruísmo e não empatia. Mas poderia receber como resposta de qualquer parte que tal atitude seria resultado de empatia e, como não agi, não fui empático. Complicado isso. Mas eu realmente me coloquei no lugar daquele homem.
Imagine-se deficiente físico, confuso em suas faculdades racionais, abandonado por família e desprovido de amigos. Agora se imagine em situação semelhante a daquele homem. Por fim, imagine-se apontado a gargalhadas. Imaginou-se? Imaginou-se mesmo? Pois é, provavelmente você, como ele, não se importaria em ser a graça dos outros – sequer teria noção disso. Mas já pensou? Imagine-se agora esmagado por um carro dirigido por alguém que ignora o que se passa naquele cruzamento, e mais, ignora sua existência. Ah, o que tem também? Afinal, nesse contexto, você já nem existe mesmo? Isso e um pouco mais foi o que me ocorreu naquele cruzamento e depois dele.
Alguns, provavelmente, dirão que exagerei na dose com essa crônica. Outros acharão maçante – a esses, respeito a crítica. Àqueles, digo que a maioria das pessoas só reage ao choque e olhe lá – exemplo disso é essa situação sim, por que as mesmas pessoas que estavam rindo teriam ficado penalizadas acaso o cara tivesse sido atropelado e, algumas delas, até digo que teriam vontade de agredir ao motorista do ônibus que só fez ficar parado – não sejamos hipócritas.
Empatia. O que é isso mesmo? Colocar-se no lugar dos outros não é algo necessário somente em situações extremas, aplica-se também, e muito mais, as coisas do cotidiano, beibe! Coisa “mais nada a ver”, né? Seria, desculpe-me lembrar (eu sei que você já sabe muito bem disso), mas nós vivemos em sociedade por aqui. O que tem a ver? Ora: acaso você é um ser independe o tempo todo? Vai dizer que nunca ficou “P” da vida por alguém não entender ou respeitar seus sentimentos, seus momentos, suas carências, suas manias, seus acessos, sua felicidade repentina, sua depressão, seu mal humor, sua vontade de ficar calado e sozinho, de qualquer coisas que seja? Isso não tem a ver?
Apenas imagine-se. Situe-se. No mínimo, você ganha um momento de reflexão.
Gustavo Lacerda.
13 de out. de 2009
Tua, Minha, Alma
Como um vampiro, chego silencioso,
Na calada, como quem não quer nada.
Deixo-me perceber.
Aos poucos, você me tem em teu seio,
Me recebe como um dos mais próximos teus.
Como um vampiro, seduzo,
Encanto com as mais belas palavras,
Torno-me indispensável com os mais nobres atos.
Aos poucos, você me tem em teu seio,
E os outros deixam de ter o mesmo brilho.
Sou dos mais ardilosos e insaciáveis
Caçadores vorazes da noite,
E minha noite pode ser de seus mais ensolarados dias,
De manhãs frescas a tardes escaldantes,
De alvoradas promissoras a poentes apaixonantes.
Como um vampiro, que sou, tramo.
Aos poucos, tenho teus seios em meus dentes.
Possuo a você, minha presa da vez,
Meu alimento, meu ego mitigado.
Por vezes, sugo até a última gota,
E parto em seguida, sem olhar para trás.
Apago de minhas memórias sua existência.
O que fica são os traços relevantes de sua alma.
Outras vezes, o sadismo toma conta de mim.
Me apaixono e, nestas, sou eu quem escraviza.
Torno meus dentes em teus seios um vicio,
Que, pra mim, não passa de artifício
Para ver-te deleitando-se com a dor que prenuncia tua morte.
Sou um vampiro – o tempo não me importa!
Quando a sede vier, vou bater a tua porta.
Cedo ou tarde, demorada ou rapidamente,
Ei de sugar a tua alma por completo.
Sugarei até a última gota!
Partirei sem olhar teu corpo vazio.
Apagar-te-ei, sem deixar vestígios.
O que há de ficar são os traços relevantes de tua alma,
Incorporados a minha.
Gustavo Lacerda.
21 de set. de 2009
Meu Mundo e Eu
O meu mundo é outro.
Não é o mesmo deles
E também não é o mesmo daqueles.
O meu mundo é meu,
E o máximo que posso é conceder
Não mais que uma fatia,
Com gosto e cheiro de tempo.
O meu mundo é meu
E eu pertenço ao meu mundo.
Porém, do tempo, eu só tenho o cheiro,
Que conservo em minha boca,
O divido em fatias e lhe concedo uma
Através da qual você há de imaginar um gosto
O tempo não tem cheiro
O tempo não tem gosto
O tempo é como a água em um rio
Que segue seu curso ininterruptamente
O tempo não mente e não tem pretensões.
Se seu mundo deixa de ser seu,
Também deixa você de pertencer a si
E passa a pertencer ao mundo de outrem.
Inexiste aquele que perde seu mundo,
E viver não passa de vagar a deriva do tempo,
Que consome como que somente quer matar a fome.
O tempo não tem cheiro.
O tempo não tem gosto.
Mas o tempo tem fome
E ele consome quem não tem seu próprio mundo.
O meu mundo é meu
E eu pertenço ao meu mundo.
Porém, do tempo, eu mesmo só tenho o cheiro,
Que conservo em minha boca
E que, mesmo assim, me foge em baforadas
A cada tragada no meu marlboro light.
Meu mundo e eu somos um do outro,
Mas o tempo é solitário e senhor de si.
2 de jul. de 2009
Cativo da Vida
Desculpe-me, mas não vou me desculpar com você.
Soa contraditório o que acabo de dizer,
Mas coerência demais é fruto de ensaio.
Não vou mentir para acalmar seu coração.
Em breve, não serei mais que uma recordação,
Só acessada quando revirada aquela gaveta
Bagunçada, cheia de contas pagas
E algumas fotografias trilhadas pelas traças.
O tempo vem, vai e leva consigo a vida.
E é ela, a vida, quem nos detém
E nos arrasta consigo, nos fazendo crer sermos nós a levá-la por aí.
Os sentimentos mudam com os pensamentos,
Que não param nem para que se durma em paz,
Não cessam, não dão sequer uma breve trégua
Para que se possa recompor-se.
Não se controle, deixe-se levar!
Você não tem forças para resistir as ocasiões,
E ocasiões nada mais são que armadilhas,
Tramóias da vida para brincar com todos.
É indiferente o que se possa dizer,
Quando o que de fato conta é aquilo que
Só se pode ouvir no silêncio,
Nos movimentos do corpo,
Nas expressões reservadas da alma.
Não importa o que seja dito!
Cedo ou tarde, será esquecido.
Por isso não minto e não nego.
Por isso não há culpa para desculpa.
Que os corações se desesperem
E se explodam diante das verdades
De quem se sabe cativo da vida!
Gustavo Lacerda