19 de abr. de 2010

Restauração

No silêncio do campo de batalha devastado,
Descansam os corpos sem alma estraçalhados
Por uma guerra que pareceu durar desde sempre.
Cada corpo vazio, uma história.

Nevoeiro, escuridão, podridão, desilusão.
A esperança crucificada e aparentemente morta.

Um único batimento cardíaco provoca uma reação em cadeia.

O Céu se rompe e o mundo inteiro estremece.
A Terra é rasgada ao meio e de dentro o fogo
Se ergue, sobe e queima a falta de vida,
Iluminando as trevas de forma ininterruptível.

A capacidade aparentemente perdida de arder é restaurada.
O coração impiedosamente partido é colado.
Os sentidos selados são revigorados.
O fluxo essencial à vida é retomado,
A sensibilidade suavemente liberta,
A escura prisão demolida,
A barreira rompida.

É a vida!

Gustavo Lacerda.

24 de mar. de 2010

Encontros, despedidas, chegadas, partidas

Encontros, despedidas, chegadas, partidas.

Tudo acontece quando tem que acontecer, sem que possamos prever a hora exata, sem que possamos ensaiar a melhor maneira.

Manhãs, tardes, noites, madrugadas... dias... tudo começa e termina. Isso é previsível, sempre sabemos a hora exata que vai acontecer, mas nem isso sabemos como vai ser, com quem vai ser, até quando vai ser ou se vai realmente ser, se estaremos aqui, vivos, pra ver.

Encontros, despedidas, chegadas, partidas. Não há como ensaiar, devemos nos entregar ao acaso, que de acaso pouco tem... e, por menos que de acaso tenha algo, o controle não está em nossas mãos. O controle é possível? Controle não há...

Algo só chega ao fim quando de fato todas as fontes se esgotaram. Por vezes, uma vida chega ao fim sem que o corpo morra... então uma nova vida deve começar no corpo que prevalece e, para se começar uma nova vida, é necessário zerar absolutamente. Nascer mais uma vez.

Nem todas as despedidas foram como eu gostaria. Nem todas as partidas foram como eu almejava. Tudo simplesmente aconteceu.

As chegadas, os encontros têm sido revigorantes e diferentes do que eu imaginei que poderiam ser. O inesperado tem acontecido com mais frequencia... e tem sido melhor que meus sonhos mais recentes. Tudo está simplesmente acontecendo enquanto eu vivo.

Encontros, despedidas, chegadas, partidas. Mais encontros e chegadas que despedidas e partidas - é o que se tem quando o zero é absoluto ou mais perto possível disso.

Chegadas e encontros. Zero absoluto.

Gustavo Lacerda.

29 de jan. de 2010

Surdez

Houve um tempo em que olhos, ouvidos e mente

Interessavam-se pelo sentimento.

Mas eis que o super-ego ascendente

Mudou todos os focos para o pensamento,

Que vem de dentro e bloqueia a entrada da caverna.


Há quem ouça e não compreenda.

Há quem mude de assunto no apse do sentimento.

Há quem se interesse, mas se perca por um momento,

Que dura não mais que o arrependimento,

Que assola por este investimento de tempo

Sem retorno, mas com frases que rimam como se feitas para cordel.


Acostumaram-se tanto a não ter quem ouça,

Que, quando têm, esquecem-se de si

E respeitam a vontade fútil de quem vos ouve.


Acostumaram-se tanto a não ouvir,

Que, quando lhes ocorre o pensamento,

Logo o despejam, mesmo que a custo do atropelamento

E desrespeito à necessidade de quem vos fala.


Contando que ocorra troca,

Sempre ouça quem vos fala.

Nunca fale com quem não te ouça.


Me acostumei tanto a não ter com quem falar,

Que pouco falo até comigo mesmo.

Olhos abertos, ouvidos atentos,

Mentes dispersas: sou vítima dos pensamentos.

Não meus – os teus, dos outros, de todos.


Desisti de falar, cansei de ouvir.


Gustavo Lacerda.

7 de jan. de 2010

Sua Falta

Na falta que você me faz,
Pratico com afinco o desapego
Àqueles por meio dos quais desafogo
As mágoas, que não merecem minhas lágrimas.

Desafogo a tristeza e a lanço,

Em forma de incerteza, nos braços abertos
Daqueles que, por ternura, vêm para me salvar.

Não matarei afogadas essas mágoas.

Deixa-las-ei no árido deserto da solidão,
Escaldando sob a luz do dia,
Petrificando às sombras da noite.
Desejo vê-las morrerem secas!

Na falta que você me faz,

Atiro alucinado, para todos os lados,
Com minha arma carregada de desprezo.

Você me manda cortar os pulsos agora,

E eu o obedeço para que veja
Que não há mais sangue,
Que já não sinto dor alguma,
Que, sem você, o que existe apenas um corpo oco.

Traga-me de volta o sangue,

Beije-me para que eu sinta a dor
Que consiste unicamente em nosso amor.
Devolva-se ao nosso mundo!

Na falta que você me faz,

A morte em vida é insuperável,
A escuridão da noite imensurável
E a alvorada inalcançável.

Salve-me antes que meu veneno

Ácido corroa tudo o que era pleno
E desole todos os bons corações a minha volta.

Gustavo Lacerda.

26 de out. de 2009

Os Empáticos

Estava eu a caminho da faculdade e eis que me deparo com um homem fora de si gritando e apontando um cartão vermelho para o motorista do ônibus, obrigando-o a manter o veículo parado – e o transito fervendo ao lado. O cara estava deitado no asfalto, bem na hora do Rush, bem num dos cruzamentos mais movimentados do Centro. De repente, ele se levanta e ergue a perna esquerda e grita ainda mais, querendo evidenciar seu pé deformado, o que deduzi, em minha intuitiva e “invasiva” sensibilidade, ter sido provocado por um acidente envolvendo um ônibus.

Fiquei assustado. Pasmo! Mas o sentimento mais gritante em mim ali era o incomodo – e não o incomodo por ver um louco gritando, apresentando um cartão vermelho e se jogando no chão para um ônibus na hora do Rush. O que me incomodou foram as pessoas, que, por ignorarem os riscos que aquele homem corria – por estarem se lixando, ao bem da verdade, para o quanto é triste a falta de controle emocional, a deficiência das faculdades mentais, o fato de ser sozinho no mundo (por que uma pessoa naquela situação não tem alguém) – riam, algumas até gargalhavam e apontavam como se fosse o maior espetáculo daquele fim de tarde abafado de outubro, quiçá de todo mês de outubro.

Fiquei tão assustado, que me ocorreram diversas formas de tirá-lo dali, mas me faltou ação. Confesso que tive aquele pensamento egoísta e nada altruísta que a maioria de nós tem nessas situações, de que “alguém tinha que fazer alguma coisa” – não eu, outrem. Fiz nada. Fiquei imóvel, atordoado com medo de um carro virar mais apressado e passar por cima daquele homem. E, olhem, tenho que confessar mais uma coisa: talvez, não sei bem, meu maior medo fosse assistir a um atropelamento e não o fato de alguém naquele contexto ser atropelado – medo por mim, não por ele. Isso é preocupante.

Não tenho a menor pretensão de acender qualquer discurso polido, humanitário, politicamente correto com essa crônica – longe de mim, saberá quem me conhece ou conhece meus textos. Mas é que fico profundamente incomodado com a falta de empatia presente na maior parte das pessoas nos dias de hoje – e me incluo neste meio, sem medo de ser apontado ou taxado de qualquer maneira, pois tenho comigo a tranqüilidade de não ser hipócrita, mas sim franco, muito franco.

Eu sou do tipo que se coloca no lugar do outro. Porém minhas experiências de empatia são em situações mais corriqueiras, bem menores, longe de serem extremas. Empatia se aplica pra mim na hora de entender alguém que está mal humorado, alguém que reclama muito da vida, alguém que está com dificuldades financeiras, alguém que brinca demais, alguém que se prende demais a religião, alguém que faz de tudo para se ver livre no mundo, alguém que trabalhe demais ou de menos, que tem suas dificuldades, seus problemas, suas falhas. Aprendo muito com essas minhas experiências, por que, inconscientemente, acabo fazendo minhas projeções e, quando vem a tal da situação difícil, consigo me safar mais rapidamente e com menos dor – já fiz isso bem melhor, é verdade, mas continuo aprendendo.

Exposto a essa situação extrema, me questiono se sou realmente empático como imagino. Eu poderia dizer que, naquele contexto, qualquer atitude da minha parte teria sido solidariedade ou altruísmo e não empatia. Mas poderia receber como resposta de qualquer parte que tal atitude seria resultado de empatia e, como não agi, não fui empático. Complicado isso. Mas eu realmente me coloquei no lugar daquele homem.

Imagine-se deficiente físico, confuso em suas faculdades racionais, abandonado por família e desprovido de amigos. Agora se imagine em situação semelhante a daquele homem. Por fim, imagine-se apontado a gargalhadas. Imaginou-se? Imaginou-se mesmo? Pois é, provavelmente você, como ele, não se importaria em ser a graça dos outros – sequer teria noção disso. Mas já pensou? Imagine-se agora esmagado por um carro dirigido por alguém que ignora o que se passa naquele cruzamento, e mais, ignora sua existência. Ah, o que tem também? Afinal, nesse contexto, você já nem existe mesmo? Isso e um pouco mais foi o que me ocorreu naquele cruzamento e depois dele.

Alguns, provavelmente, dirão que exagerei na dose com essa crônica. Outros acharão maçante – a esses, respeito a crítica. Àqueles, digo que a maioria das pessoas só reage ao choque e olhe lá – exemplo disso é essa situação sim, por que as mesmas pessoas que estavam rindo teriam ficado penalizadas acaso o cara tivesse sido atropelado e, algumas delas, até digo que teriam vontade de agredir ao motorista do ônibus que só fez ficar parado – não sejamos hipócritas.

Empatia. O que é isso mesmo? Colocar-se no lugar dos outros não é algo necessário somente em situações extremas, aplica-se também, e muito mais, as coisas do cotidiano, beibe! Coisa “mais nada a ver”, né? Seria, desculpe-me lembrar (eu sei que você já sabe muito bem disso), mas nós vivemos em sociedade por aqui. O que tem a ver? Ora: acaso você é um ser independe o tempo todo? Vai dizer que nunca ficou “P” da vida por alguém não entender ou respeitar seus sentimentos, seus momentos, suas carências, suas manias, seus acessos, sua felicidade repentina, sua depressão, seu mal humor, sua vontade de ficar calado e sozinho, de qualquer coisas que seja? Isso não tem a ver?

Apenas imagine-se. Situe-se. No mínimo, você ganha um momento de reflexão.


Gustavo Lacerda.