4 de fev. de 2009

A Cor do Sexo

Um corpo convulsivo era o que esperava ter,
Com pernas e braços entrelaçados,
Dentes e unhas cravados na pele,
Olhos cerrados, confusos entre dor e prazer.
Carne tremula, lascívia do ser
E tudo que não se pode ver,
Apenas tocar,
Somente sentir.

Tivera o que esperava
E um pouco mais.
Tivera o cheiro,
Tivera o som,
Tivera o sabor,
Tivera o famigerado Amor.

Amor, que traz ao sexo cor.

Gustavo Lacerda

1 de dez. de 2008

Incontrolável

Não quero ouvir.
Não quero parar.
Não tenho o que dizer.
Não quero falar.

Quero continuar,
Não me tente fazer parar.
Não quero ter que te machucar.
Nada pode me parar!
Ninguém pode me segurar.

Só posso me satisfazer quando chegar.
Quando eu chegar!
Não quero ninguém.
Posso e vou além.
Não importa o que faça, ficará aquém.

Se caio, me levanto.
Se me desespero, ando.
Mesmo que aos prantos, não cesso.
Eu não vou parar!
Nada pode me fazer parar!

Eu não vou te escutar!
E se o silêncio não partir de ti,
Partirá de mim.
Perfuro meus tímpanos!
Arranco meus olhos, acaso escreva!
Não quero ver.
Não quero saber.
Deixe-me viver!

Se neva em minha sala de estar,
Respiro fundo para absorver,
Pois a neve é libertadora,
Acalenta os desesperados,
Dá força, coragem e ousadia pra continuar.

Eu não vou parar!
Nada vai me parar!
Ninguém pode me conter.

Saia do meu caminho!
Saia já do meu caminho,
Ou eu vou te atropelar!

Eu não vou parar!
Não quero parar.

Não posso parar.

Gustavo Lacerda

11 de nov. de 2008

Veneno do Despertar

O vento da noite acaricia meu rosto
E faz de certas possibilidades um quase desgosto
De causas nada naturais,
Com um “quê” de absurdas.

Venenosas carícias.

Indizível passado gerador de desconfiança,
Amargura, dissabores e desamores.

Maldita cama de noites ternas,
Manchada no cruzamento com outras pernas
Enganadoras e contadoras de verdades eternas
Firmadas no seio das indestrutíveis montanhas de pedra.

Doce vento de uma noite de nuvens rubras
Como o sangue quente fugindo daquelas veias
Tão grossas, firmes e frágeis.

Venenoso vento.

Dilaceramento.
Sentimento.
Arrependimento.
Desejo insaciável por um ato proibido,
Ainda não completado, portanto não consumado.

Reflexiva noite de ventos cortantes,
Que trazem consigo ensejos incoerentes
Para a destruição do que aparenta ser o bem.

Venenosa noite.

Veneno que não mata.
Veneno que não derruba.
Veneno que queima.
Veneno que sublima a culpa.
Veneno que desperta.

Venenosas lembranças que aterram
Impiedosamente o que surge no presente,
Encarnando sua imagem como sendo a do futuro.

Agridoce veneno que desperta
As defesas criadas pela falência do caráter
E pelo calculado assassinato do amor.


Gustavo Lacerda

4 de nov. de 2008

Máscaras de Chuva

Chove seco noite adentro.
Chuva seca, cautelosa, cheia de minúcia
No que diz respeito ao silêncio arquitetado,
Planejado para que não a percebam.

Máscaras que revelam várias verdades
Maquiadas por um sistema que se passa por de carne.
Máscaras fidedignas do gelo que cai na forma líquida
E que de tão frias queimam a pele de quem tocam.

20 de out. de 2008

O Jardim, a Roseira, os Espinhos e a Luz

Ilumina a calma.
Ilumina a rua.
Ilumina a alma.
Ilumina a amargura.

Por trás de um aparentemente intransponível muro,
Existe um jardim cheio de cores,
Frutas, gramas, luz e todo tipo de flores.

Raramente alguém ousava se aproximar,
Pois se dizia que um antigo mal habitava aquele lugar.

Tudo começou com uma roseira mal cuidada,
Onde antes nasciam as mais belas rosas dali.
Fora esquecida e por muito tempo não podada.
E o tempo fora tanto, que suas raízes tornaram-se cipós.

Espinhos cresceram em torno dos cipós,
Que por sua vez cresceram em torno do muro,
Que por sua vez tornara-se ameaçador,
De forma que assustava a quem passava por ali,
E feria a todos que tentassem pular.

Ilumina a calma.
Ilumina a rua.
Ilumina a alma.
Ilumina a amargura.
Ilumina a vida que há por trás do muro.

O jardim tem vida e tem dos mais belos sentimentos,
E não dorme, aguarda, sonha com o momento
Em que alguém poderá saltar o muro sem se machucar.

O jardim clama pelo fim da chuva,
Que o rega e faz os cipós crescerem mais e mais.
Deseja o fim de seu augoz,
Mas teme também morrer se acaso secarem,
Pois haverá de secar junto deles na falta da água.

Ilumina a calma
Ilumina a rua
Ilumina a alma
Ilumina a amargura
Ilumina a roseira de forma concentrada,
Mas não de forma a destruí-la,
E sim somente aos cipós espinhentos
Que saem de seus pés e que devem secar e morrer.

Ilumina a calma
Ilumina a rua
Ilumina a alma
Ilumina a amargura
Ilumina o mundo, e traze consigo amores
A serem vividos sem barreiras naquele jardim.


Gustavo Lacerda