Fecho os olhos e vejo, do alto, a cidade.
É noite e não há cores, apenas luzes.
Ela é grande, mas o silêncio é o que a habita.
Eu vejo tudo e penso que ninguém me vê,
Mas o mundo me vê e me guarda... um dia se recorda.
Isso é o tipo de coisa que acontece.
Mas o que acontece quando você se conhece por inteiro?
Mas o que acontece quando você não se encaixa?
E aí, o que acontece quando você vê que veio pra passar pelas vidas alheias,
Para estar fisicamente apenas pelo tempo de um suspiro?
... O que acontece?
Estranha a convicção de que sempre estarei sozinho.
Estranha a convicção de que nunca estarei sozinho.
Estranho o choque de convicções!
Vivo feliz com minhas complexas convicções,
E é isso que acontece... bem desse jeito.
Gustavo Lacerda.
11 de out. de 2008
26 de set. de 2008
O Mínimo
As derradeiras noites de insônia.
O dissipar dos dias de descanso.
O resoluto sentimento de retorno próximo.
A pouco sofrida reaproximação com a rotina.
O mínimo que se pede é um pouco de bom senso,
Nesse quase confuso momento,
Onde basta meu rompante ego de intenso.
O mínimo que se pede é um pouco de paciência,
Nessa pré-correria rotineira e esmagadora,
Onde basta meu angustiante vício de intolerante.
O mínimo que se pede é um pouco de fé,
Nessa perdição incessante de virtudes e valores,
Onde basta minha mania de esmagar tudo com o pé.
O mínimo que se pede é um pouco de verdade,
Nesse antro de pervertidos e perversores,
Onde basta minha incontrolável vaidade.
O mínimo que peço é a dissolução da minha vontade.
Mas vontade de quê?
Se fosse só uma por vez, simples seria.
Mas simples não é!
O mínimo que se pede é o máximo de descomplicação,
Nesses dias descompassados de primavera,
Que precedem as sufocadoras noites de verão.
O mínimo que desejo é o mínimo de paixão!
E que venham muitas para avassalar minha razão
E acalentar de pouco em pouco meu agridoce coração.
Tudo que se pede é o mínimo,
Para eu encarar o que está por (re)voltar.
O dissipar dos dias de descanso.
O resoluto sentimento de retorno próximo.
A pouco sofrida reaproximação com a rotina.
O mínimo que se pede é um pouco de bom senso,
Nesse quase confuso momento,
Onde basta meu rompante ego de intenso.
O mínimo que se pede é um pouco de paciência,
Nessa pré-correria rotineira e esmagadora,
Onde basta meu angustiante vício de intolerante.
O mínimo que se pede é um pouco de fé,
Nessa perdição incessante de virtudes e valores,
Onde basta minha mania de esmagar tudo com o pé.
O mínimo que se pede é um pouco de verdade,
Nesse antro de pervertidos e perversores,
Onde basta minha incontrolável vaidade.
O mínimo que peço é a dissolução da minha vontade.
Mas vontade de quê?
Se fosse só uma por vez, simples seria.
Mas simples não é!
O mínimo que se pede é o máximo de descomplicação,
Nesses dias descompassados de primavera,
Que precedem as sufocadoras noites de verão.
O mínimo que desejo é o mínimo de paixão!
E que venham muitas para avassalar minha razão
E acalentar de pouco em pouco meu agridoce coração.
Tudo que se pede é o mínimo,
Para eu encarar o que está por (re)voltar.
18 de set. de 2008
Desequilíbrio Constante
Fogo do tipo que queima tudo que se aproxima.
Fogo do tipo que se alastra rapidamente.
Fogo do tipo que nem água pode apagar.
Fogo do tipo que faz arder até a alma mais fria.
Fogo do tipo que ilumina até o lado negro da lua.
Gelo do tipo que congela tudo que se aproxima.
Gelo do tipo que envolve tudo muito rapidamente.
Gelo do tipo que nem fogo pode derreter.
Gelo do tipo que faz esfriar até o coração mais caloroso.
Gelo do tipo que pode petrificar o Sol por inteiro.
Fogo.
Gelo.
Fogo suficiente para derreter o gelo dos pólos.
Fogo suficiente para causar ebulição nos oceanos.
Fogo suficiente para que a chuva seque sem tocar o chão.
Gelo suficiente para congelar toda a água do mar.
Gelo suficiente para causar uma nova era glacial.
Gelo suficiente para que as gotas da chuva se tornem lanças.
Fogo demais.
Gelo demais.
Fogo além do que se pode controlar.
Gelo além do que se pode suportar.
Conflito entre duas partes que se consomem.
Fogo do tipo que se alastra rapidamente.
Fogo do tipo que nem água pode apagar.
Fogo do tipo que faz arder até a alma mais fria.
Fogo do tipo que ilumina até o lado negro da lua.
Gelo do tipo que congela tudo que se aproxima.
Gelo do tipo que envolve tudo muito rapidamente.
Gelo do tipo que nem fogo pode derreter.
Gelo do tipo que faz esfriar até o coração mais caloroso.
Gelo do tipo que pode petrificar o Sol por inteiro.
Fogo.
Gelo.
Fogo suficiente para derreter o gelo dos pólos.
Fogo suficiente para causar ebulição nos oceanos.
Fogo suficiente para que a chuva seque sem tocar o chão.
Gelo suficiente para congelar toda a água do mar.
Gelo suficiente para causar uma nova era glacial.
Gelo suficiente para que as gotas da chuva se tornem lanças.
Fogo demais.
Gelo demais.
Fogo além do que se pode controlar.
Gelo além do que se pode suportar.
Conflito entre duas partes que se consomem.
14 de set. de 2008
Todo es Mentira
Gosto que tente me arrancar pedaços.
Você sente minha carne tenra,
E quando aproxima seus dentes, me esquivo.
Apenas imagina como deve ser macia minha pele.
Você, como todos, como não poderia deixar de ser, mente.
E cada mentira sua pra mim não passa de uma semente,
Que cuidadosamente planto e cultivo com as demais,
Tantas minhas e tantas de outros como você.
Todas diferentes e, ao mesmo tempo, ridiculamente idênticas.
Mentiras são verdades que dão certo da boca pra dentro
De tolos que se valorizam além da conta,
Ao acreditar na ingenuidade de um sorriso doce
E não observar os olhos que os dissecam por inteiro.
Você mente e pergunta se me importo com sua verdade.
Respondo com um sorriso e digo estar tudo bem,
Para que você se vá realizado e contente.
Gosto que se sinta por cima da carne seca.
Sua vaidade aquecida enaltece meu ego,
Assim como a lua maligna de fogo
Acelera o fluxo do sangue em minhas veias.
Você se vai com a intenção de retornar
E possuir com desejo latente
Cada centímetro do meu corpo quente.
Como eu quis que se fosse.
Certas pessoas ocupam espaço demais.
Gosto que tentem me arrancar pedaços.
Essas pessoas sentem minha carne tenra,
E, quando metem seus dentes, os perdem!
A carne é tenra, mas a pele é de aço.
E no final das contas, você mentiu
E acreditou ter feito tudo exatamente como planejou.
Mas te guiei até o ponto que eu queria.
Sinto em informar, meu caro:
_ Você foi manipulado.
Você sente minha carne tenra,
E quando aproxima seus dentes, me esquivo.
Apenas imagina como deve ser macia minha pele.
Você, como todos, como não poderia deixar de ser, mente.
E cada mentira sua pra mim não passa de uma semente,
Que cuidadosamente planto e cultivo com as demais,
Tantas minhas e tantas de outros como você.
Todas diferentes e, ao mesmo tempo, ridiculamente idênticas.
Mentiras são verdades que dão certo da boca pra dentro
De tolos que se valorizam além da conta,
Ao acreditar na ingenuidade de um sorriso doce
E não observar os olhos que os dissecam por inteiro.
Você mente e pergunta se me importo com sua verdade.
Respondo com um sorriso e digo estar tudo bem,
Para que você se vá realizado e contente.
Gosto que se sinta por cima da carne seca.
Sua vaidade aquecida enaltece meu ego,
Assim como a lua maligna de fogo
Acelera o fluxo do sangue em minhas veias.
Você se vai com a intenção de retornar
E possuir com desejo latente
Cada centímetro do meu corpo quente.
Como eu quis que se fosse.
Certas pessoas ocupam espaço demais.
Gosto que tentem me arrancar pedaços.
Essas pessoas sentem minha carne tenra,
E, quando metem seus dentes, os perdem!
A carne é tenra, mas a pele é de aço.
E no final das contas, você mentiu
E acreditou ter feito tudo exatamente como planejou.
Mas te guiei até o ponto que eu queria.
Sinto em informar, meu caro:
_ Você foi manipulado.
13 de set. de 2008
Rosa de Prata
Atrás de uma das portas do nono andar de um dos mais decadentes edifícios de Belo Horizonte, daqueles que podem ser encontrados somente no Médio Meretrício, o Bolero de Ravel abafara o som de um crime. No chão, uma poça de sangue só fazia crescer em torno do corpo desnudo de um jovem formoso que devia ter não mais que vinte anos. No corpo ainda havia vida. O jovem agonizava – a dor era tanta que já nem sentia. Estava de bruços, com o rosto voltado para a esquerda.
Uma leve, morna e úmida brisa assoprava lá fora, e, de tempos em tempos, invadia o quarto pela janela entreaberta, quase sem ser notada. A cidade dormia. Era inicio de madrugada de quinta para sexta-feira. Uma enorme e ensangüentada faca de cozinha impunha-se diante dos olhos do moribundo – estava jogada, mas não esquecida, ao lado do corpo pálido, quase sem sangue e sem vida. Aquele que desferira os golpes contra o rapaz ainda estava presente no recinto.
Através do boxe do banheiro, um vulto. O chuveiro estava ligado – era o agressor, que ainda não se havia tornado assassino. Terminado o banho e tendo-se livrado do sangue do rapaz, que lhe sujara dos pés a cabeça, a figura sombria buscou com a mão uma das duas toalhas penduradas na parede para enxugar-se. Saiu despido do banheiro e seguiu para a sala, onde se pôs diante de sua vítima.
O rapaz tinha a pele levemente morena e um corpo escultural. Em toda a extensão das costas, tinha tatuado um anjo de asas abertas. Os cabelos eram castanho-escuros e ondulados, em um tamanho médio, quase à altura do pescoço. As pupilas estavam dilatadas, ofuscando a vivacidade verde da íris. Tinha lábios carnudos, agora pálidos. O vermelho que se mostrava vinha de dentro da boca: era sangue. Na orelha esquerda, um delicado brinco prateado em formato de rosa brilhava sob a luz do abajur.
O agressor vestira-se diante do rapaz. Os olhos, quase sem vida, não o abandonaram por sequer um segundo. Enfiou a arma do crime num saco plástico e guardou-a numa pasta.
___ Você me forçou a isso. – sussurrou o agressor, abaixando-se diante da vítima, com o cuidado de não sujar de sangue os pés ainda descalços. O Bolero de Ravel encerrava e recomeçava alguns segundos mais tarde; estava em repeat. Uma lágrima escorria-lhe pelo lado esquerdo do rosto. Levantou-se e deu alguns passos na direção do aparelho de som; sem teclar stop, ejetou o cd contendo a trilha sonora da atrocidade cometida há pouco e o guardou na mesma pasta em que guardara a arma do crime. Assentou-se na poltrona e calçou-se. Contorceu-se todo para ficar por cima do rapaz sem ter de tocá-lo ou em seu sangue. Sussurrou mais uma vez – Eu te amei, mas você me forçou a isso! Poderíamos ter sido felizes juntos, mas você teve que estragar tudo! Foi tudo culpa sua. Tudo! – e mais algumas lágrimas fugiram-lhe dos olhos. Abaixou-se um pouco mais, apoiando-se na mesa de centro para não cair, e beijou levemente o lábio inferior do moribundo, que já quase não respirava mais, que já tinha aquela respiração breve e pesada que prenuncia o fim. Retirou a pequena rosa de prata da orelha de sua vítima e sussurrou mais uma vez: “Isso eu levo novamente comigo, como recordação do que tivemos juntos, de minha grande desgraça, meu anjo.” – Beijou-lhe novamente o lábio, demorando-se alguns segundos mais dessa vez. Levantou-se, com a delicada rosa de prata fechada na mão direita, pegou a pasta sobre o sofá, desligou o abajur e saiu.
A respiração do jovem tornou-se ainda mais escassa... cessou. Uma lágrima escorreu-lhe a face. Agora aquele era um corpo sem vida. O agressor tornara-se, finalmente, assassino.
Uma leve, morna e úmida brisa assoprava lá fora, e, de tempos em tempos, invadia o quarto pela janela entreaberta, quase sem ser notada. A cidade dormia. Era inicio de madrugada de quinta para sexta-feira. Uma enorme e ensangüentada faca de cozinha impunha-se diante dos olhos do moribundo – estava jogada, mas não esquecida, ao lado do corpo pálido, quase sem sangue e sem vida. Aquele que desferira os golpes contra o rapaz ainda estava presente no recinto.
Através do boxe do banheiro, um vulto. O chuveiro estava ligado – era o agressor, que ainda não se havia tornado assassino. Terminado o banho e tendo-se livrado do sangue do rapaz, que lhe sujara dos pés a cabeça, a figura sombria buscou com a mão uma das duas toalhas penduradas na parede para enxugar-se. Saiu despido do banheiro e seguiu para a sala, onde se pôs diante de sua vítima.
O rapaz tinha a pele levemente morena e um corpo escultural. Em toda a extensão das costas, tinha tatuado um anjo de asas abertas. Os cabelos eram castanho-escuros e ondulados, em um tamanho médio, quase à altura do pescoço. As pupilas estavam dilatadas, ofuscando a vivacidade verde da íris. Tinha lábios carnudos, agora pálidos. O vermelho que se mostrava vinha de dentro da boca: era sangue. Na orelha esquerda, um delicado brinco prateado em formato de rosa brilhava sob a luz do abajur.
O agressor vestira-se diante do rapaz. Os olhos, quase sem vida, não o abandonaram por sequer um segundo. Enfiou a arma do crime num saco plástico e guardou-a numa pasta.
___ Você me forçou a isso. – sussurrou o agressor, abaixando-se diante da vítima, com o cuidado de não sujar de sangue os pés ainda descalços. O Bolero de Ravel encerrava e recomeçava alguns segundos mais tarde; estava em repeat. Uma lágrima escorria-lhe pelo lado esquerdo do rosto. Levantou-se e deu alguns passos na direção do aparelho de som; sem teclar stop, ejetou o cd contendo a trilha sonora da atrocidade cometida há pouco e o guardou na mesma pasta em que guardara a arma do crime. Assentou-se na poltrona e calçou-se. Contorceu-se todo para ficar por cima do rapaz sem ter de tocá-lo ou em seu sangue. Sussurrou mais uma vez – Eu te amei, mas você me forçou a isso! Poderíamos ter sido felizes juntos, mas você teve que estragar tudo! Foi tudo culpa sua. Tudo! – e mais algumas lágrimas fugiram-lhe dos olhos. Abaixou-se um pouco mais, apoiando-se na mesa de centro para não cair, e beijou levemente o lábio inferior do moribundo, que já quase não respirava mais, que já tinha aquela respiração breve e pesada que prenuncia o fim. Retirou a pequena rosa de prata da orelha de sua vítima e sussurrou mais uma vez: “Isso eu levo novamente comigo, como recordação do que tivemos juntos, de minha grande desgraça, meu anjo.” – Beijou-lhe novamente o lábio, demorando-se alguns segundos mais dessa vez. Levantou-se, com a delicada rosa de prata fechada na mão direita, pegou a pasta sobre o sofá, desligou o abajur e saiu.
A respiração do jovem tornou-se ainda mais escassa... cessou. Uma lágrima escorreu-lhe a face. Agora aquele era um corpo sem vida. O agressor tornara-se, finalmente, assassino.
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